Relato universal

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Nathalia Giordano

Um trabalho artístico que universaliza a dor da perda. “Elena”, dirigido por Petra Costa, é um regaste de memórias, é quase um testamento para a irmã falecida da documentarista.  O filme, performático-poético, valoriza as impressões de Petra, é subjetivo e cria narrativas universais.


A história é sobre a atriz Elena que vai à Nova Iorque para realizar um sonho, mas se perde em suas angústias. A moça que queria atuar e beijar o Sinatra, também queria morrer. Petra tinha sete anos quando sua irmã se suicidou. Na época, a menina ainda não sabia nomear seus sentimentos, mas para amenizar a dor de seu coração dilacerado pela partida precoce de sua confidente, ela chacoalhava um urso de pelúcia esperando que algum poder sobrenatural de seu brinquedo mudasse a realidade que vivia. Ao mesmo tempo, uma mãe semi-morta, rodopiava em luto corrosivo.

O documentário só existe pelo cumprimento de uma pesquisa jornalística intensa, uma busca incansável. A documentarista resgata memórias e escava territórios sentimentais. Ela explora, cava, examina, procura, analisa.  É um trabalho jornalístico importante sobre a perda que foi desfigurado e transformado em narrativa poética subjetiva e assim se tornou um relato universal. Todos amamos uma Elena, todos vivemos a ausência de uma Elena. Petra mastiga toda sua pesquisa e vivência para então recriar a história com um relato lírico contado em voz sussurrante, como alguém que conta um segredo. É o segredo da ausência que atinge todos nós.

No filme, Elena, Petra e a mãe se tornam uma única mulher. Há um ponto de intersecção entre as três: o sonho de ser atriz e o desejo de morrer – mesmo que em épocas diferentes e por motivos distintos. Essas semelhanças fazem Petra se tornar Elena: as duas se misturam para que depois a documentarista consiga se emancipar, descobrir sua individualidade e matar a irmã simbolicamente. 

É misterioso como o documentário não se tornou sentimental e tampouco individualista. Petra se materializa em cena, atua praticamente em primeira pessoa, faz sua narrativa onipresente e ainda assim o filme não é sobre ela, não é sobre sua dor.

A mãe não pôde atuar por questões políticas, Elena tentou e falhou, Petra vai à Nova Iorque e dirige as duas em momentos diferentes. Essa filmagem realiza sonhos e liberta os vivos de alguém ausente que parece rondar o canto de todas as salas. É preciso escancarar as feridas para que elas se sequem. A diretora expõe bravamente suas entranhas e caça sua irmã morta no exterior – encontra o cheiro, ouve sua voz, toca sua mão. Depois de encontrá-la e compreender a falta de Elena, Petra consegue se reerguer e levantar com ela sua mãe.

Todavia, a ausência machuca eternamente. Enquanto na infância, Petra usava seu ursinho para controlar o incontrolável, hoje se mune de uma filmagem. 

Breve ficção política ou matando o mato

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Viajando pelo interior de Goiás, meu estado nativo, observei a tristeza do nosso Cerrado destruído por extensas plantações, seringais e pastos cheios de gado. O medo de perder essa vegetação fez minha mente delirar em uma ficção política

Isadora Otoni


Viajando pelo interior de Goiás, meu estado nativo, observei a tristeza do nosso Cerrado destruído por extensas plantações, seringais e pastos cheios de gado. Também tive a oportunidade de ver algumas fazendas com grandes gramados onde outrora se observava nossas típicas árvores baixinhas e com troncos engraçados. Fiquei envergonhada, como goiana, de abrir mão da nossa natureza, que é sustentável por si só, para que grandes latifundiários façam suas plantações e exportem seus produtos para outros estados e outros países, como a soja e os derivados da cana. Em troca de tudo isso, só ganhamos uma terra infértil.

Para quem não conhece, o Cerrado funciona de uma forma incrível. Durante a seca, as árvores parecem semimortas, o solo se transforma em pó vermelho, o clima fica árido, e tem tanta folha seca no chão que um raio já provoca uma grande queimada na mata. Por isso, gosto de dizer que nosso Cerrado é como uma fênix. É com as cinzas dessas queimadas naturais que o solo se fertiliza e fica propício para o surgimento de frutos exóticos, como o pequi e o cajuzinho-do-cerrado. É nesse lugar aparentemente inóspito que vivem belas aves, micos e peixes da savana mais rica do mundo. É nessa região árida que se encontra as nascentes de três das maiores bacias hidrográficas da América do Sul: Amazônica/Tocantins, São Francisco e Prata.

Fiquei tão envergonhada pela devastação desse bioma que meu medo se tornou uma paranoia. Sério, nessa viagem a angústia fez até minha mente bolar uma ficção política.

Vivemos em um Brasil com uma cultura totalmente colonizada por países ricos, como Estados Unidos, Alemanha e Austrália. Consumimos tudo o que a globalização permite que eles nos exportem. Seriados do Netflix, cantores de hip hop, viagem para Disney, Colgate Luminous White e pasta de amendoim. Não existe nenhum brasileiro que não compartilha o sonho americano. Afinal, o importante é ter conforto, mas luxo é sempre bom. Com desejos materiais tão caros, tanto apreço por um design moderno e necessidade constante de ter mais, uma crise econômica enlouqueceria o país.

Mas a crise chega. Nos deparamos com uma grande dívida externa e dificuldades de produção.
As ruas pedem: Impeachment da presidenta! E nada melhora. Impeachment duplo, tira o vice! Não muda quase nada. Traz aquele famoso combo de impeachment triplo e batata frita grande, por favor! Mas a crise é brava. Os brasileiros começam a ter muito medo. Medo de perder a SUV conquistada, o xampu L’Oreal que deixa o cabelo brilhoso, o iPhone 6 de 32 GB, o último PlayStation lançado, o apartamento com ar-condicionado em todos os quartos e o uísque Old Parr das visitas. O medo de perder o título exemplar de país em ascensão, como apontou grandes líderes e até mesmo o-pre-si-den-te-dos-Es-ta-dos-U-ni-dos!, leva a população a apoiar medidas drásticas.

“Vamos sanar nossas dívidas! Vamos ser ricos de novo! Vamos voltar a colocar o Real como uma das moedas mais bem cotadas pelo Banco Central! Eu tenho uma ideia, vamos vender a Amazônia!”
“Excelente ideia! Eu sou pós-graduado em Biologia pela melhor universidade alemã e sei que outros países poderão fazer um excelente uso desse bioma.”
“Sim, concordo. Eu faço Economia na Faculdade Getúlio Vargas e acho que podemos arrendar essa nossa mata inutilizada. É só uma medida provisória para restabelecer nossa economia.”
“Claro, o desejo do povo é meu desejo! Eu sou Ministro da Fazenda e posso dizer que temos uma proposta dos Estados Unidos que vai nos salvar. Vamos recuperar empregos, sanar nossas dívidas, voltar a investir em infra-estrutura, poderemos produzir novamente! Precisamos dar algo em troca, claro. Mas eles são ótimos, têm tecnologia suficiente para praticar seu capitalismo sustentável, completamente verde, vão saber usar o solo fértil da Amazônia. A gente nunca conseguira fazer o que eles vão fazer.”

Enfim começamos a ter de volta nossos carros luxuosos, nossos cosméticos importados, nossos eletrônicos modernos, mas não por muito tempo. Nossa natureza era sustentável por si só, mas o “capitalismo sustentável” exigiu tanto dela que deu tilt, deu ruim, pane, não tem volta, ela não vai mais funcionar. Quem já acompanhou o arrendamento de alguma terra sabe que essa medida não tem volta. Não tem solo que aguente agricultura intensiva, gananciosa, ostensiva. E então fica impossível gerar frutos e riqueza nessa mata morta.  A partir desse dia, os brasileiros se encaram com remorso, porque sabem que têm a culpa entalada na garganta. Nos sentimos burros e impotentes. Não tem um cidadão que não tenha se sentido explorado. Não tem um cidadão que não deseja voltar atrás.

Ok, voltemos à realidade, leitor. Nós não somos assim e não é assim que a nossa política funciona, amém. Qualquer semelhança com o discurso do seu tio consumista ou da sua vizinha reacionária é só coincidência. Essa viagem toda serviu para me lembrar que o sonho brasileiro é diferente. Pelo que eu conheço do nosso povo, nossa felicidade é abraçar todo mundo, levar a família para passar a emenda do feriado na beira do rio, aplaudir o pôr-do-sol na Pedra do Arpoador e colher umas jabuticabas no quintal. Isso não tem nada de ingênuo como parece. Os brasileiros podem ser caipiras para o resto do mundo, mas são esses hábitos que mostra o quanto valorizamos nossas raízes, nossos irmãos e nossa natureza. Que continuemos assim, provando que o nosso sonho é outro, e ele não tem nada a ver com o “sonho americano”.

Legenda foto 1: Seringal próximo a Petrolina de Goiás. Créditos: Isadora Otoni.
Legenda foto 2: Vegetação nativa do Cerrado, com árvores baixinhas e engraçadas. Créditos: Wikimedia Commons.

Arte de amar

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Nathalia Giordano


Inspirado na peça AMOR que participei com o delicioso grupo Espaço Mágico. Trabalhamos durante um ano, juntei o que me restou das possíveis formas de amar e trago um breve relato.


Inspirado na peça AMOR do grupo Espaço Mágico 
Ir contra palpites óbvios. Ouvir conselhos, virar a esquina. Correr ao seu encontro. Te seguir pelos corredores como uma sombra que escolta seus passos. Deixar o teu calor a alguns metros para fazer o jantar. Te fazer o jantar. Atentar-me a sua respiração ao dormir, ameaçar um abraço, mas virar para o lado. Inflar pulmões com cheiro de vísceras humanas e te querer. Tremer a abstinência de afeto quando não há mais o que oferecer, pedir ainda mais. Não levar a sério suas paranoias. Acampar o tédio em mim ao ouvir em silêncio seus monólogos, assustar-se com o entardecer silencioso. Engolir lágrimas ásperas. Esconder meus defeitos, mas apresenta-los diariamente como um todo. Assistir às falhas de comunicação. Usar suas roupas. Sentir seu cheiro durante o dia, pulsar a saudade em sague quente. Dizer que não posso te encontrar, mesmo quando o peito se dilacera com a distância. Praguejar. Desejar não ter te conhecido, implorar para que o destino cruze ainda mais nossos caminhos.  Reclamar da presença, chorar. Rasgar-se angustiada. Morrer. Morrer de insegurança. Acabar com o amor, fazê-lo renascer no epicentro de todas as flores ao seu redor. Dormir com pés quentes. Aceitar o humor ranzinza, pedir mais afeto em contraponto. Deitar árabe em cama israelita. Assustar-se em brigas, ir embora. Abandonar nosso ninho, voltar três vezes. Errar, aceitar desculpas. Pedir perdão. Errar de novo.  Perder a realidade. Delirar. Sofrer palpitações noturnas, querer te acordar no meio da noite, não se mover. Acalmar-se ao te observar dormir. Ver seus pais. Ver você nos defeitos que reclama neles. Gostar de vocês juntos. Planejar o futuro, perceber que somos péssimos em criar rotas e cancelar todas elas. Habitar planetas distantes, suplicar por colisão. Sonhar com filhos, apavorar-se. Contemplar o mais belo quadro, a posição bagunçada em que ficam nossas escovas de dentes. Repugnar a proximidade. Esperar por um casamento, achar uma bobagem colossal. Implorar por provas de amor, não precisar de mais nada. Guerrear. Estrebuchar. Mergulhar em loucuras conjugais. Listar mil razões para partir, uma a mais para ficar. Se afastar, voltar sedenta. Aceitar o fim, recomeçar a cada instante. Alcançar seu íntimo, te conhecer. Implorar pela abstinência, beber mais. Suar corpos libidinosos. Brigar. Chorar a desesperança, sorrir o amor eterno. Rir do efêmero, sentir o infinito. Aceitar. Te aceitar.

Sapo alucinógeno

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Esse texto é contra a exploração de animais, mas a favor da compreensão das possibilidades da natureza. Sim, existe uma espécie de sapo que libera DMT

Isadora Otoni



Existem muitas polêmicas a cerca do que será exposto nesse texto. Por isso, peço para que você leia até o final para entender minha linha de raciocínio, e assim questionar o que você sentir que deve ser questionado. Eu aprecio o convite ao debate.

Há algum tempo, em uma roda de conversa entre amigos fritos, jogaram um assunto que me deixou muito curiosa: é possível utilizar o veneno liberado pelo sapo para fins recreativos. Encontrei com dificuldade algumas informações na internet sobre o tema. O texto mais confiável que encontrei sobre o assunto foi o estudo Alucinógenos Naturais: um Voo da Europa Medieval ao Brasil, publicado em 2009. Ainda assim, a referência ao tema é breve, resumido ao seguinte trecho: "A bufotenina, alucinógeno extraído da pele do sapo, possui propriedades alucinógenas muito semelhantes à DMT. A diferença entre estes alucinógenos é a presença de uma hidroxila na estrutura da bufotenina. Esta substância é produzida por espécies vegetais do gênero Anadenanthera e encontrada na pele de sapos do gênero Bufo.”

Conversei então com o biólogo Thiago Vinicius Pereira, que apesar de nunca ter realizado uma pesquisa sobre o tema, me explicou sobre o sapo alucinógeno. Na realidade, o bufotenina é composto por Dimetiltriptamina (DMT), toxina triptamina do grupo dos alcalóides. Esse grupo de substâncias psicoativas era muito usado pelos xamãs com fins medicinais, como cura do câncer e outras doenças. Fazem parte desse grupo a cafeína, cocaína, psilocibina (do cogumelo), codeína (da papoula) e outros nomes que você provavelmente conhece.


Rhinella marina (Wikimedia Commons)
Segundo Thiago, o bufotenina pode ser encontrado nas espécies Rhinella marina, encontrada principalmente na mata atlântica no Brasil, e Bufo alvarius, original dos Estados Unidos. Por meio das glândulas que ficam atrás dos ouvidos dessas espécies, podemos obter o DMT. Se essa foi a primeira vez que você ouviu falar nessa substância, saiba que ela é considerada como um enteogênico. Ao pé da letra, isso significa que ela causa a “manifestação interior do divino”. Mas pode também ser considerado um forte alucinógeno por alterar seu estado de consciência.

Mas para usar o DMT, explorar um sapo não é o melhor caminho.

Primeiro, porque você teria que tirar o animal de seu habitat natural e submetê-lo ao estresse de extrair o DMT de suas glândulas. Isso é exploração. E talvez exista gente que faça isso sem ter essa consciência.

Bufo alvarius (Wikimedia Commons)
Segundo, porque existem outras toxinas presentes no veneno dos sapos Rinella marina. A ingestão oral destas substâncias podem ocasionar efeitos colaterais inesperados, como ataques epilépticos, coma e eventualmente a morte. 

Terceiro, porque existem outras formas de experimentar o DMT. A natureza é tão fascinante que essa substância pode ser encontrada em vários gêneros de plantas, como Acacia, Anadenanthera, Chrysantheum, Psychotria, Desmanthus, Pilocarpus, Virola, Prestonia, Diploterys, Arundo, Phalaris. Esse é, inclusive, o princípio ativo da ayahuasca, bebida utilizada em rituais como o de Santo Daime. O próprio corpo humano sintetiza DMT. De acordo com estudos do psiquiatra Dr. Rick Strassman, a glândula pineal é a provável responsável por isso (recomendo uma pesquisa sobre outras possíveis responsabilidades da glândula pineal).

Preparo de ayahuasca (Wikimedia Commons)
Se por algum instante você se sentir desconfortável com esse texto e pensar que ele faz apologia às drogas, relembre: As drogas estão aí há milênios. Elas nascem da terra. É utópico pensar que alguma política conseguirá exterminá-las. Então, o melhor caminho é desmitificar as drogas, legalizá-las, e trabalhar com a redução de danos.

Ps: Esse texto não tem nada a ver com a “vacina do sapo”. Essa vacina é extraída da perereca amazônico Phyllomedusa bicolor, ou Kambô. A aplicação do veneno causa grande desconforto (calor, náuseas, dores no estômago) por aproximadamente 15 minutos. Essa medicina é usada para fortalecer o sistema imunológico e para afastar o “panema” (má sorte).

Pergunte ao sertanejo se ele anda de Camaro

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Dizem que a cultura goiana vive seu auge, que o sertanejo está sendo realmente valorizado. Catira que é bom ninguém tá dançando
Isadora Otoni


Até a primeira metade do século XX, a ocupação do espaço goiano era predominantemente rural. A identidade cultural do estado era, portanto, a sertaneja. Devido à explosão do sertanejo universitário, o senso comum é de que a cultura goiana nunca esteve tão em voga, tão valorizada. No entanto, a cultura sertaneja não se encaixa com sertanejo universitário.

A dissertação “Felicidade engarrafada: Bebidas alcoólicas nas músicas sertanejas” revela, por exemplo, que dos 48 artistas do gênero mais famosos segundo o site “www.letras.terra.com.br”, apenas 7 não possuíam músicas relacionadas ao consumo de álcool. Um possível resumo das 243 letras que a pesquisadora Mariana Lioto catalogou é a música “Eu vou zuar e beber, vou locar uma van e levar a mulherada lá pro meu AP”, de Henrique e Diego.

Isso mostra que outro tema recorrente do sertanejo universitário é a ostentação, como no hit Camaro Amarelo da dupla Munhoz & Mariano: “Agora eu fiquei doce igual caramelo, tô tirando onda de Camaro amarelo". Uma pesquisa no Google evidencia que não só as letras giram em torno de uma felicidade material (Tipo Jurerê e Vem Ni Mim Dodge Ram), mas também os clipes trazem a imagem de um homem branco, heterossexual que se impõe às mulheres e, acima de tudo, rico (Piradinha e Empinadinha).

Não vou entrar no domínio do machismo, porque a tradição goiana nunca foi a de igualdade de gêneros. Entretanto, não identifico o homem sertanejo como a figura predominante no sertanejo universitário. Provavelmente essa nem é a ideia, então precisamos parar de achar que a cultura goiana está sendo valorizada.

O povo goiano tem origens de indígenas (os Goyá, oras) e de quilombolas (encontrei registro de pelo menos 12), além dos bandeirantes que nos colonizaram. Nossa cultura não é tradicionalmente europeia.

Quando penso em cultura sertaneja, lembro do que minha professora da primeira série tentou resgatar no imaginário de seus alunos. Os mutirões, por exemplo: era comum na sociedade rural que os vizinhos realizassem um trabalho coletivo para alguém que estava necessitando, e em troca, o necessitado oferecia uma festa. Nesses eventos, tocavam sanfona, dançavam catira, bebiam, é claro, e também se serviam de banquetes típicos (outra prova de que a cultura goiana não está tão em voga é que em São Paulo só temos dois restaurantes típicos. Eu tô com saudades da nossa pamonha, galera).

E não preciso ir tão longe da minhas próprias experiências. Meu pai morou na fazenda até os 7 anos, voltando todas as férias para roça até os 16 anos. Ele me contou que ouviam só as rádios AM porque lá não pegava FM, destacando o Programa do Zé Bettio, de música caipira, que fez muito sucesso nos anos 80. A agricultura da família era bem pequena, e tudo era construído com coletividade.

Da fazenda de nossa família, eu lembro de quando nos reuníamos para fazer pamonha: desfolhar o milho, tirar os “cabelos”, ouvir um modão sertanejo e fofocar sobre todo mundo da cidade inteira.

Os eventos mais bonitos e ricos que vi na cidade em que nasci, por exemplo, eram os religiosos. As procissões que passavam na frente de casa, com todos segurando velas acesas, enchiam meus olhos. A Folia de Reis, que também está presente em outros estados, me deslumbrava com comidas típicas, músicas poéticas, instrumentos e figurinos artesanais e palhaços que me amedrontavam.

Fica aqui um desejo de que não reduzam mais Goiás ao sertanejo universitário, e de que o sertanejo universitário termine sua graduação.

O sertanejo que meu pai lembra:

Legenda foto: Encontro de Folia de Reis em Goiânia. Créditos: Comissão Goiana de Folclore